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Páginas
2016
Ano
Dissertação de Mestrado
Biologia
Valorização da flora de Cusseque e Caiúndo no centro e sul de Angola e avaliação da biomassa lenhosa utilizada para combustível e construção
por Raquel Kissanga Vicente da Silva Firmino
Universidade de Lisboa
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Resumo
O presente estudo foi desenvolvido nas regiões centro e sul de Angola, em Cusseque
(província do Bié) e Caiúndo (província do Cuando-Cubango), no âmbito do projeto TFO
(The Future Okavango Project) e teve como objetivo identificar as espécies usadas pelas
comunidades residentes, as respectivas utilizações e estimar o seu valor de uso, bem como
estimar a quantidade de madeira e lenha consumidas anualmente e avaliar o respetivo impacto
na vegetação florestal. Foram feitas entrevistas semiestruturadas a uma amostra de membros
das comunidades residentes e colhidos exemplares das plantas utilizadas. As espécies citadas
foram enquadradas em nove categorias de uso. Fez-se uma estimativa da biomassa lenhosa
utilizada pelas comunidades de Cusseque para a construção e combustível por meio de
observações e medições do peso e volume dos troncos usados na construção.
Foram identificadas no total 160 espécies de plantas úteis, pertencentes a 50 famílias. As
famílias com mais espécies em ambos locais foram as Fabaceae, Poaceae e Euphorbiaceae.
Poucas espécies tiveram um valor do uso elevado. Várias espécies são utilizadas para mais
que uma finalidade, sendo que tanto no Cusseque quanto no Caiúndo, a maioria é utilizada
como medicinal, alimentar, e para construção, fabrico de utensílios e combustível.
Os dados obtidos em Cusseque apontam para um consumo total anual de 524,6 toneladas
pelos 1085 residentes, correspondendo a 483,5 kg de biomassa lenhosa per capita. Deste
total, o consumo de lenha corresponde a cerca de 1kg per capita por dia, ou 411,2 toneladas
de biomassa gastas anualmente pelas populações das 3 aldeias estudadas, 78% do total. Por
outro lado, são utilizados na construção de casas cerca de 113,4 toneladas de biomassa
florestal por ano, correspondendo a cerca de 22% do total. Estima-se que o miombo maduro
tenha cerca de 88 toneladas por hectare. A quantidade de biomassa utilizada por ano
corresponderá assim a uma exploração de cerca 6 hectares. Porém, estes resultados não
mostraram uma fraca correlação entre a utilização e a disponibilidade das espécies no miombo.
Embora os dados apresentados se reportem apenas a um pequena comunidade no centro de
Angola é pela primeira vez que se quantifica a biomassa lenhosa usada para combustível e
construção e, mesmo que os valores obtidos sejam apenas estimativas grosseiras, permitem ter
uma perspetiva do impacto da utilização das plantas pelas comunidades residentes e da
respetiva sustentabilidade.
Palavras-chave
Etnobotânica
Valor de Uso
Espécies úteis
Biomassa lenhosa
Lenha
